Atividade física corporativa: colaborações para a saúde do trabalhador
Introdução
Atualmente as relações de trabalho estão cada vez mais complexas. O avanço da tecnologia tem exposto os trabalhadores a uma grande pressão competitiva, submetendo-se a exigências de maior produtividade devido à concorrência do mercado mundial. Esta tendência faz com que as empresas procurem cada vez mais por indivíduos capacitados e preparados a uma abordagem mais competitiva (1).
Muitas empresas direcionam a atenção dos trabalhadores ao processo de produtividade e qualidade, oferecendo benefícios e recompensas pelo aumento da produtividade, deixando de lado suas necessidades pessoais para alcançar os objetivos propostos. Por isso, o trabalho ocupa espaço importante na vida do funcionário, uma vez que, este passa a maior parte de seu tempo no local ocupacional do que em suas casas ou em atividades destinadas ao lazer (2).
Observa-se, que a relação entre bem estar e saúde do funcionário e aumento da produtividade no ambiente de trabalho entram em desequilíbrio, uma vez que as empresas ignoram as necessidades citadas acima. Este equilíbrio é alcançado quando a realização de atividades prazerosas e saudáveis em ambientes onde se permaneça por longos períodos (local ocupacional) e onde o nível de stress costuma ser elevado, implicam em ansiedade, falta de concentração e queda na produtividade (2).
Foi constatado na prática, que pessoas que não se sentem satisfeitas e tranqüilas em seu ambiente de trabalho, e cujos níveis de tensão e insegurança são significativos, tornam-se mais propensas a sofrerem acidentes de trabalho e cometerem erros. Mediante este fato, ocorrem mudanças no mundo do trabalho, seja na produção ou na corporação, gerando aos trabalhadores conseqüências para a sua saúde física e mental(1).
Além disso, um novo perfil patológico configura-se, sendo caracterizado pela maior prevalência, na população trabalhadora, de agravos à saúde marcados pelas doenças crônicas. Proliferam-se então, as doenças cardiocirculatórias, gastrointestinais, psicossomáticas, morbidades na musculatura esquelética expressa nas lesões por esforços repetitivos (LERs), às quais se somam o desgaste mental e físico patológicos, além de doenças psicoafetivas e neurológicas ligadas ao estresse e conseqüentemente prejudicando a produtividade da empresa (3).
A alta exigência pela competividade nas empresas tem elevado em demasia o desgaste dos funcionários, o que acabou favorecendo a implantação de programas de qualidade de vida nas empresas. Uma das estratégias utilizadas tem sido a inserção da atividade física no ambiente de trabalho que consiste desde a ginástica laboral até a construção de academias nas empresas. Assim, as empresas devem proporcionar a qualidade de vida aos seus funcionários, e incorporar na rotina diária a prática de atividade física, objetivando uma redução nos índices de sedentarismo e criando uma humanização e valorização no ambiente de trabalho. Assim, o trabalho torna-se equilibrado quando permite ao indivíduo a recuperação de suas necessidades biopsicossocias, contribuindo para a sua realização e reestruturação pessoal (1).
Sedentarismo e qualidade de vida
Com o processo de industrialização, existe um crescente número de pessoas que se tornam sedentárias e com pouca oportunidade de praticar atividades físicas, principalmente nas atividades relacionadas ao lazer(4).
O sedentarismo se reflete nas condições de trabalho oferecidas nas empresas, que têm sido melhoradas significativamente devido ao avanço e democratização da tecnologia. Por outro lado, a comodidade proporcionada por essas tecnologias no trabalho e no lazer, tem contribuído para a adoção de um estilo de vida caracterizado pela inatividade física e pela alimentação hipercalórica dos fast – foods (5).
O predomínio da dieta denominada ocidental (rica em gorduras, açúcares e alimentos refinados, e reduzida em carboidratos complexos e fibras) em vários países e regiões do mundo, e o declínio progressivo da prática de atividade física, contribuem para o aumento da incidência de doenças crônicas não transmissíveis (6).
Considera-se como atividades físicas como qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que resulte em gasto energético, tendo componentes e determinantes de ordem biopsicosocial, cultural e comportamental, podendo ser exemplificada por jogos, lutas, danças, esportes, exercícios físicos e deslocamentos (4).
Benefícios da prática de atividade física associados à saúde e ao bem-estar, assim como riscos do aparecimento disfunções orgânicas relacionados ao sedentarismo, são amplamente apresentados e discutidos na literatura. Segundo Blair (7), o sedentarismo é considerado um problema mundial de saúde. A falta de informação de como se exercitar, as finalidades de cada exercício, limitações de alguns grupos populacionais e percepções distorcidas em relação aos benefícios do movimento são consideradas os maiores fatores que levam à inatividade física (8).
Análises epidemiológicas demonstraram que muitos indivíduos morreram simplesmente por sedentarismo, o que despertou em muitos países a importância da atividades física em sanar esse problema de saúde pública (2).
Para proporcionar bem-estar no ambiente de trabalho, segundo Micheletti (9), o esporte é alternativa que, ao mesmo tempo em que contribui para a manutenção da saúde do indivíduo, é fator de desenvolvimento profissional.
Programas de atividade física corporativa
A busca pela qualidade de vida insere-se no contexto da responsabilidade social, onde a prática deve ser incorporada tanto pelas empresas quanto pelos próprios profissionais. Para que os programas de qualidade de vida gerem benefícios efetivos, o comprometimento deve ser completo: a empresa deve desenvolver políticas, ações e programas de estímulo a uma vida saudável, e o funcionário, por sua vez, deve perceber que seu papel é fundamental para que os objetivos sejam alcançados por ambas as partes (10).
Segundo Fitz-Enz (11), a chave para manter uma empresa lucrativa ou uma economia saudável é a produtividade da força de trabalho – o Capital Humano. Visto esta necessidade, o equilíbrio organizacional reflete o êxito das organizações em recompensarem seus integrantes (12).
Com a maior participação do capital humano no sucesso das empresas, a valorização desse ativo torna-se imprescindível pessoas saudáveis trabalhando em organizações saudáveis, o que representa negócios com melhores lucros e maior retorno do investimento (13).
É importante ressaltar a distinção entre atividade física no local de trabalho ou fora dele e ginástica laboral (GL), pois essas duas práticas têm objetivos diversos e diferem significativamente nos meios e instrumentos que utilizam. A GL tem por objetivo principal a prevenção de doenças ocupacionais, é realizada nos locais de trabalho durante a jornada de trabalho, atuando de forma preventiva e terapêutica. De acordo com Souza(2), a ginástica no ambiente de trabalho surge em 1925, com a terminologia de “ginástica de pausa” e Couto (14) enfatiza a importância da pausa pelo organismo devido à diminuição das lesões por atividades repetitivas, onde as tais “pausas” poderiam contribuir para a fluxo normal de sangue diminuindo o acúmulo de ácido láctico no músculo; visco elasticidade normal e lubrificação dos tendões evitando atrito interestrutural.
Já os programas de atividade física consistem em incentivos à prática de esportes ou atividades que levem a um maior dispêndio energético e movimentação da musculatura. Em geral, recomenda-se a prática de um esporte ou atividade física pelo menos três vezes na semana, com uma duração de aproximadamente uma hora por sessão. Para isso existem as academias e outros centros esportivos, em geral, fora dos locais de trabalho, o que poderia invibializar que o trabalhador se exercitasse regularmente (15).
No Brasil, são raros os programas de atividade física nas empresas no sentido de promover uma conscientização e um aumento da prática de exercícios, visando à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e da população em geral. Apesar das tentativas bem intencionadas de proporcionar maiores oportunidades de os trabalhadores se exercitarem fisicamente, oferecendo descontos em academias, ou até academias próximas dos locais de trabalho e outros tipos de incentivo, a participação não é muito constante (15).
Em levantamento realizado pelo Ministério da Saúde em 1988, evidenciou-se que apesar dos esforços de programas de incentivo para a prática de atividades físicas boa parte de população brasileira encontra-se inativa. Na década de 1990, houve aumento da prática de atividade física pela população, principalmente nas nações industrializadas, porém tal situação permanece nos países independente de sua taxa de desenvolvimento, onde 60% da população adulta apresentam níveis insuficientes de atividade física (16).
Foi constatado pelo Grupo Pão de Açúcar (17), que um colaborador que pratica exercícios físicos regularmente tem um índice de 30% maior de produtividade e registra uma motivação para o trabalho 40% maior. Pesquisa realizada pelo grupo consta que das 1000 maiores empresas no país, 93% possuem uma academia de ginástica, o que demonstra investimento no colaborador e conseqüentemente gera a satisfação deste(18).
Benefícios da atividade física para os trabalhadores
Os principais benefícios da atividade física para os funcionários são: melhora da auto-imagem, redução das dores, redução do estresse e alívio das tensões, melhoria do relacionamento interpessoal, aumento da resistência da fadiga central e periférica, aumento da disposição e motivação para o trabalho e a melhoria da saúde física, mental e espiritual (18).
Em estudo realizado por Domingues (8) observou-se que a população tem conhecimento do tempo mínimo (3 dias da semana por 30 minutos) de realizar exercícios para que gerem benefícios à saúde. Observou-se também que entre os exercícios físicos considerados “emagrecedores” entre homens e mulheres do estudo, destacam-se o futebol e a caminhada, respectivamente. Concordando com as recomendações fisiológicas, onde atividades aeróbicas estão relacionadas com o consumo de gordura corporal. Dentre os participantes desse estudo, muitos relacionaram prática de atividade física a indivíduos de pouca idade e de saúde plena, no entanto, sabe-se que pessoas com limitações e/ ou idosas se beneficiam do movimento corporal para melhor qualidade de vida (7).
A análise da percepção sob o exercício realizada no estudo de Domingues (8), dos cinco problemas citados pela população como alteráveis pela prática do exercício o mais citado foi o estresse, seguido dos problemas circulatórios, problemas emocionais (depressão, ansiedade) e insônia. No mesmo estudo, verificou-se que a facilidade da prescrição e adesão de terapias farmacológicas poderia diminuir a prática de atividades físicas, uma vez que grande parte da população considera que problemas como hipertensão e hipercolesterolemia devem ser tratados apenas com medicamentos e dieta, mostrando a baixa prevalência de conhecimento sobre os benefícios do exercício para a saúde.
Em estudo realizado por Stort (1) no qual se observou melhora do humor em trabalhadores de uma empresa, constatou-se que a prática de exercícios físicos regulares de intensidade baixa ou moderada está relacionadas com este fator, podendo melhorar os níveis de rendimento e competividade da empresa, uma vez que insatisfações pessoais podem transparecer em desequilíbrio no trabalho, assim como insatisfações no trabalho podem trazer desajustes na vida familiar e social.
O trabalhador que reserva alguns minutos por semana para exercitar-se tem mais disposição e seu serviço irá render muito mais. Quando a pessoa está praticando qualquer tipo de atividade ocorre um aumento do volume sanguíneo e uma maior oxigenação dos músculos. Tais atividades resultam em maior fôlego, disposição e energia para realizar suas tarefas diárias. Além disso, atividade física ajuda a manter o estresse a distância (19).
Considerações finais
As empresas dependem de seus funcionários para obterem sucesso, por isso suas equipes devem estar motivadas a atuarem de forma diferenciada. Para manter uma equipe motivada a empresa terá que oferecer “motivos” diferentes do benefício salarial que estimulem a permanência e o rendimento de seus funcionários nos programas corporativos de atividade física.
Sendo o exercício físico o maior produtor de saúde, este é o primeiro a ser abandonado quando há a inserção no mercado de trabalho, devido à carga horária e trajeto até o local ocupacional. No entanto, cabe às empresas incentivarem a prática de exercícios físicos, como um “motivo” que satisfaça suas necessidades diante do mercado competitivo, devido aos benefícios da prática de esportes como a retenção de despesas com faltas por doenças crônicas associadas ao sedentarismo, além de proporcionar melhora no desempenho e rendimento dos trabalhadores devido à melhora dos aspectos não somente físicos, mas também emocionais, que em conjunto tornam o ambiente de trabalho mais valorizado e humanizado.
Os programas de promoção de atividades físicas nas empresas são uma grande oportunidade de democratizar conhecimentos a respeito da atividade física no contexto da saúde e de cuidados com os hábitos de vida, desde que tenham suporte político e técnico para favorecer a conscientização sobre o trabalho, corporeidade e sociedade.
*Nutricionista graduada pelo Centro Universitário São Camilo, **Acadêmica do curso de Nutrição pelo Centro Universitário São Camilo, ***Nutricionista, Mestre em Saúde Pública pela FSP/USP, Doutoranda da Faculdade de Medicina da USP, Docente do Centro Universitário São Camilo.
Fonte e referências: http://www.efdeportes.com/efd125/atividade-fisica-corporativa-colaboracoes-para-a-saude-do-trabalhador.htm

